Entrevista com Rodrigo Faour

18/mai/2011, por     2 Comentários    Categorias: Edição 4
Rodrigo Faour

Rodrigo Faour, 38 anos. Resgatador musical carioca. Biógrafo de Cauby Peixoto, de Claudette Soares e da história sexual da MPB. Responsável, entre outros primores, pela reedição histórica em CD de toda a discografia de Maria Bethânia, é entrevistado pelo blogueiro Paullo Azeviche (http://soymanjerona.wordpress.com/) para o Jornal Xavante, desenvolvido por alunos da Unicamp.

 

Paulo Azeviche: MPB anos 2000. O que houve?
Rodrigo Faour: Uma fase complicada. Para começar, a falência da indústria do disco provocada pelo download gratuito e pela pirataria excessiva. Aqui como no mundo inteiro vemos artistas sem muita identidade, fazendo um carbono piorado de tudo o que já foi (melhor) feito. É uma tendência mundial. Os que conseguem fazer um trabalho melhor acabam tendo muita dificuldade de gravá-lo com boa qualidade e de ter penetração  porque temos excesso de artistas – qualquer pessoa pode ter um myspace e “ser” artista. A cultura da celebridade também empurra um estilo de artista que quer apenas ser vip, aparecer, estar na mídia, sem a verve visceral necessária para se estar em cima de um palco ou à frente de um microfone num estúdio.

Paulo Azeviche: Sandy ex-Júnior=MPB, devassa-pop ou nem adianta tentar? E Luiza Possi? E ÍDOLOS? E Raul Gil?
Rodrigo Faour: Em geral, temos hoje artistas e programas de calouros com influência do pop, do soul e do gospel norte-americano. Difícil um calouro brasileiro sem cacoetes desses gêneros. E há cantoras que se levam a sério demais, são geladas demais e emoção zero. Tenho saudades de Cássia Eller, que sofreu influências que iam de Angela e Cauby até Nirvana, mas tinha tesão, voz e talento genuínos.

Paulo Azeviche: Quais são as burocracias de se tratar da música brasileira dos anos 70/80 em um livro? Como lidar com arquivos “abandonados” de gravadoras, questões de direitos, compositores? Os detentores dos direitos dos fonogramas apóiam o seu trabalho? Se não, quais as razões?
Rodrigo Faour: Em livro, nenhuma burocracia. Só a dificuldade natural de se fazer pesquisa no Brasil. Lançar discos antigos sim é que é difícil, a gente esbarra com a falta de cuidado das gravadoras com seu acervo (perda das masters e capas originais), obras perdidas em editoras musicais que ninguém acha, o ECAD sem informações de diversos compositores e intérpretes do passado e mil outras apurrinhações, fora alguns artistas (ou herdeiros) que não gostam de liberar músicas para as gravadoras e querem dinheiro adiantado – prática que nenhuma gravadora hoje faz, porque se vende muito pouco disco. É um inferno. Haja paixão pra fazer esse trabalho!

Paulo Azeviche: Como você consegue ter acesso aos arquivos antigos das gravadoras? Qual é o estado deles? Há funcionários que cuidam da limpeza, da temperatura e demais aspectos relacionados à conservação? Ao levar a público alguma “raridade” nunca lançada, quais os problemas e as satisfações de fazê-lo?
Rodrigo Faour: É uma alegria relançar alguma pérola rara ou inédita, mas está cada vez mais difícil conseguir as autorizações, bem como dinheiro pra tratar dessas faixas (mixar, se não estão mixadas, por exemplo) nas gravadoras que hoje estão com baixíssimo orçamento. Os acervos no geral são tercerizados e um pouco mal-tratados. Não guardam capas de discos e muitas matrizes das gravações estão perdidas. Mas este é o estado da memória nacional no geral, em todos os níveis e setores do país. Sente-se aqui e ali pequenos avanços, mas a mentalidade é algo muito difícil de mudar. Uma sociedade que sempre desprezou a memória, que valoriza apenas o “hoje”, não se muda da noite para o dia.

Paulo Azeviche: Os artistas que se vêem resgatados por você lhe são gratos?
Rodrigo Faour: No geral, sim. A prova disso é a adesão maciça ao meu programa História sexual da MPB, que mantive ano passado no Canal Brasil. Foram 45 entrevistados em apenas 1 ano. Fora o sucesso das minhas festas de entrega do Trofeu Sexo MPB, inventado por mim, quando reuno várias gerações e estilos da nossa música numa mesma noite, em torno do meu trabalho. Isto é o prêmio porque a ralação é muita. Minha vida é 10% de glamour e 90% de ralação.

 

 

 

 

 

 

 

livro de 2006

 

 

 

 

 

 

Paulo Azeviche: Rodrigo, a Vanusa conta que seu livro “Niguém é mulher impunemente” teve a primeiríssima edição barrada pelo Wanderley Cardoso (espero não estar confundindo o cantor – tô sem o meu livro pra confirmar exatamente agora) por falar sobre temas íntimos, e Paulo Cesar Araújo no seu “Eu não sou cachorro não” conta que assim que finalizou o livro, teve o aval de Agnaldo Timóteo, mesmo revelando experiências homossexuais do cantor. Quando do lançamento de seu “História Sexual da Mpb”, algo teve de ser cortado? Algum artista pediu pra você omitir algum trecho? Você tem de solicitar o aval de cada um dos citados?
Rodrigo Faour: Nada foi cortado. Tive o cuidado de ser bastante ético com minhas fontes e graças a Deus nunca tive nenhum problema, mas para escrever certas coisas hoje é preciso ser artista. Qualquer palavra enviezada é motivo de processo. Sinal dos tempos.

 

 

 

 

 

 

 

Maria Alcina

 

 

 

 

 

 

Paulo Azeviche: Nas biografias de Maria Alcina e de Edy Star, encontra-se o fato de terem sido muito rechaçados pela censura. Como era exatamente essa censura? As emissoras recebiam notificações proibindo que tais artistas se apresentassem em seus programas? Qual era o conteúdo dessas notificações? Quais as possíveis retaliações caso fossem desrespeitadas? Houve algum caso de desrespeito de alguma emissora à alguma censura?
Rodrigo Faour: Explico isso num dos meus programas no Canal Brasil, com depoimentos de ambos. Alcina foi censurada uma vez apenas por comportamento. Era andrógina e tinha hábitos exóticos no palco, como comer flores etc. Então teve que ficar uns tempos sem aparecer em rádio, tv etc. Já Edy por ser gay sofreu algumas censuras, de sacanagem, de alguns policiais que costumavam dar blitz pela cinelândia e prender desocupados, artistas e gays para exercerem sua opressão de praxe.

Paulo Azeviche: No seu livro, você conta que Raul Seixas detestava gays. Como, portanto, foi possível existir a grande parceria com Edy Star no disco Sociedade Grã-Cavernista, por exemplo?

 

 

 

 

 

 

Edy Star

 

 

 

 

 

 

Rodrigo Faour: A viúva Kika Seixas afirma isso no meu livro. Pode ter sido uma fase. Na época em que conviveu com Edy, eles eram muito amigos e, segundo ele me contou, não havia esse tipo de problema.

Paulo Azeviche: Certa vez, um dos ativistas LGBT mais radicais que o movimento já teve, me disse que grandes cantoras deixaram de dar sua contribuição por serem “enrustidas” ou por não tocarem no assunto. Você acredita na existência de um “papel” do artista além do de entretenimento/inebrio?
Rodrigo Faour: Acredito sim. Mas isso é de cada um. Não podemos forçar ninguém a levantar bandeira, mas acho maravilhoso quando um artista a levanta, mesmo achando que não está levantando, como é o caso do Ney Matogrosso. Ele sempre foi ativista do jeito dele, embora nunca partidário de nenhuma organização gay. Leci Brandão também foi bastante incisiva, especialmente no início de sua carreira, defendendo os gays e minorias sociais em geral. Marina e Cícero têm uma obra bem contundente sobre a liberdade sexual. Caetano e Gil  também. E em outros assuntos, de linha mais sócio-política, não podemos nos esquecer do MPB4, de Chico Buarque, de Ivan Lins e Vitor Martins, de Gonzaguinha, de João Bosco e Aldir Blanc, de Simone cantando “Caminhando e cantando” em 79, de Bethânia no show “A cena muda”, de Marlene em “Te pego pela palavra”… Wando a seu modo abriu muito a cabeça das pessoas reprimidas sexualmente, desde que lançou “Moça”, em 75, quebrando o tabu da virgindade. Existem mil formas de empunhar bandeiras e defender causas. No caso da homossexual, sinceramente, acho que a coisa poderia ser menos medrosa sim.

Paulo Azeviche: Em tempos de ditadura, apostar no homoerotismo era estratégia comercial de gravadoras ou expressão artística pura e simplesmente? E na atualidade?
Rodrigo Faour: Nos 70 e 80, era expressão artística pura. Na atualidade, no mainstream, à exceção de algumas músicas divertidas de Ana Carolina, não vejo nada muito expressivo e que não seja meio fake nesse quesito.

 

 

 

 

 

 

 

Gal Costa, Simone e Maria Bethânia em 1979

 

 

 

 

 

 

Paulo Azeviche: Quando do lançamento de “Bárbara” com Gal e Simone, especulou-se até que as duas tivessem gravado a música completamente nuas em estúdio. Em entrevista à Playboy, na época, Gal procura desmistificar a história transportando a conversa para a sua suposta heterossexualidade. Qual foi a real repercussão dessa gravação nas carreiras das duas?
Rodrigo Faour: Nenhuma. Essa música teve mais repercussão em 72, quando Chico e Caetano gravaram-na ao vivo em Salvador, tendo inclusive trechos censurados. Tem palmas fortes pra encobrir trechos e outras palavras desta e outras músicas daquele disco literamente cortadas na gilete na hora de editar o LP. Já o disco “Amar”, de Simone, que tem essa música, foi um disco que a cantora, por não querer ar condicionado no estúdio, ficava semi-nua gravando atrás de um biombo por causa do calor mesmo. Essa história é pura especulação de bicha-fã que não tem o que fazer e fica punhetando mentalmente essas coisas entre suas “ídolas” (risos). Em 1981, Simone fez sucesso estrondoso com “Pequenino cão”, “Encontros e despedidas” (regravada recentemente por Maria Rita) e “Pão e poesia”. E Gal, idem, com “Festa do interior”, “Açaí” e “Meu bem, meu mal”. Bons tempos que músicas dessa qualidade tocavam no rádio e TV, de norte a sul do país!

Paulo Azeviche: Qual foi o mais antropofágico, rompedor de todos os artistas?
Rodrigo Faour: Não existe um. E quem disser que foi um apenas estará mentindo. Em cada classe social, há artistas mais relevantes e prestigiados que outros. Em cada época, alguns se destacam mais do que outros. Ou pela música ou pela imagem, ou por ambos. Às vezes um artista mais antigo acaba tendo relevância mais tarde ou até depois de morto. A MPB é muito extensa, vasta, para se resumir em um único nome.

Paulo Azeviche: Como você avalia a grande aceitação popular dos Secos e Molhados em plena fase de tensões sociais e morais graves?

 

 

Secos e Molhados

 

 

Rodrigo Faour: Segundo Ney Matogrosso, o sucesso do grupo entre as crianças foi decisivo. Se as crianças ludicamente gostavam tanto deles é porque não eram tão “abomináveis” assim.

Paulo Azeviche: As drogas estavam nos estúdios?
Rodrigo Faour: Nos anos 70 e início dos 80 acredito que sim, até porque estavam por toda parte.

Paulo Azeviche: Como surgiu a oportunidade de escrever textos sobre os álbuns de Maria Bethânia quando de seu relançamento, há alguns anos?
Rodrigo Faour: Eu sugeri à Universal, EMI e Sony que relançassem simultaneamente a obra dela em homenagem a seus 60 anos. Todas toparam e acabei relançando 33 discos. Sem querer, acabei conseguindo esta união de 3 concorrentes em torno de um mesmo projeto, algo inédito na história de nossa indústria fonográfica. E o que me moveu foi apenas a paixão pela música – no caso, a obra pungente de Bethânia. Coincidentemente naquele ano de 2006 ela me ligou me pedindo uma pesquisa sobre água doce, natureza e afins, que gerou o CD Pirata e o ao vivo Dentro do mar tem rio. Na ocasião lhe falei da minha ideia e ela concordou. Foi simples assim.

Paulo Azeviche: Algo mais que você gostaria de dizer, Rodrigo? Alguma coisa que veio à sua mente de repente e que você adoraria que os estudantes soubessem?
Rodrigo Faour: Sim. Que procurem conhecer melhor a música do Brasil. Existe muita coisa divertida, pop, suingada, dramática… enfim de todos os jeitos. Se procurar, podem achar coisas mais modernas do que as que os moderninhos de plantão julgam ser a última novidade em Londres, Berlim ou Nova York. Não é à toa que os gringos vira e mexe estão sempre bebendo em nossa fonte.

@pauloazeviche

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